sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A criação do universo

A criação do universo

Izaias Resplandes
No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. Gênesis 1:1-2.
Eis uma síntese da criação do Universo. Quanto ao detalhamento dessa criação, o Gênesis não é cem por cento específico. Nós vamos encontrar no primeiro capítulo do livro alguns detalhes que poderão nos ajudar na compreensão da criação, mas não um detalhamento completo.
Primeiro, é de destacar a pessoa do Criador. No Evangelho de João se apresenta o Deus Filho Unigênito Jesus como sendo o Verbo Criador. E no versículo 2 de Gênesis 1 temos destacada a participação do Espírito de Deus sobre a face das águas. Além disso, temos também outros textos da Escritura como Sl 104:30, Jo 3:5 demonstrando a participação criadora do Espírito.
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas. Apocalipse 4:11.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. João 1:1-3.
Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra.Salmos 104:30.
Assim, nosso entendimento é que a criação é obra da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, o nosso Deus triúno.
Por segundo, queremos destacar a forma como se deu a criação.
É de observar que Deus não criou diretamente todas as coisas, embora todas as coisas criadas resultaram da palavra do Criador. Temos, portanto, a criação direta e a criação indireta. Ao observarmos o livro de Gênesis, podemos ver essa forma de agir do nosso Criador. Destacaremos alguns pontos.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. Gênesis 1:3,4.
Esse texto mostra uma ação direta de Deus criando a luz e também fazendo a separação entre a luz e as trevas. É uma ação direta de Deus.
E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi. E chamou Deus à expansão Céus. Gênesis 1:6-8.
Nesse texto vemos Deus criando os Céus. Ação direta do Criador.
E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi. E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom. Gênesis 1:9,10.
Já aqui temos a ação direta de Deus criando a Terra e os Mares.
E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. Gênesis 1:11,12.
Nesse texto começamos a ter contato com a ação criadora indireta de Deus. O Criador concede poder à terra para produzir a vegetação de um modo geral com capacidade reprodutiva, ou seja, cada espécie produzida pela terra trazia em si a semente que lhe daria a capacidade de se reproduzir. Deus não criou as árvores. Determinou que a terra criassem as primeiras, as quais viriam com sementes para assegurar a continuidade, mas sobre essa continuidade não foi estabelecido nesse momento nenhuma diretriz.
E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos. E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi. E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas. E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra, e para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom. Gênesis 1:14-18.
Aqui nós temos a criação dos astros luminosos nos Céus, para iluminar a terra. Ação direta de Deus.
E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus. E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas  abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. Gênesis 1:20-22.
Já aqui vemos a ação indireta do Criador. Ele determina que as águas produzam répteis em abundância. E no verso 22 vemos a concessão do poder para os seres  criados pelas águas e também para as aves do céu se frutificarem e multiplicarem.
E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi. E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. Gênesis 1:24,25.
Esse texto revela outra ação criadora indireta de Deus. Ele não produziu esses animais. Ele delegou essa competência para a terra. Ele criou, mas não diretamente. Ele os criou através da ação criadora da terra.
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.Gênesis 1:26-28.
E aqui temos mais uma ação direta do Criador, criando os primeiros seres humanos. E vemos também a delegação para que se frutifiquem e se multipliquem, encham a terra, sujeitando-a e dominando sobre os animais criados.
É de observar que os seres vivos criados receberam de Deus a bênção da frutificação e multiplicação. Deus continuaria renovando a face da terra, mas quase sempre de forma indireta. Os seres criados seriam os seus instrumentos de renovação. Eles usariam o poder de Deus que estaria presente neles para realizar o trabalho.
É de ver que sem o poder de Deus, nenhum ser vivo é mesmo muita coisa. A Bíblia fala de seres que não tem o espírito de Deus e destaca a sua nulidade existencial.
Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo. Salmos 51:11.
Sai-lhe o espírito, volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos. Salmos 146:4.
Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Romanos 8:9.
A recriação é contínua porque Deus simplesmente determinou que fosse assim. Ele não disse como deveria ser, mas que seria da natureza do ser vivo o ato de crescer, multiplicar e encher a terra. Essa é a Palavra de Deus, uma palavra que não muda e que deverá se cumprir sempre.
Porque eu, o Senhor, não mudo.  Malaquias 3:6.
Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Tiago 1:17.
É muito importante que entendamos como as coisas existem e o que deve ser feito para que elas continuem existindo e cumprindo as finalidades de sua criação.
Deus nos abençoe!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

sábado, 27 de outubro de 2018

A liberdade de decidir

A liberdade de decidir

Izaias Resplandes de Sousa


O homem vive uma eterna corrida pela realização de sua meta de vida. Tudo começa ao nascer, às vezes até antes sem que a gente se dê conta. E dura enquanto vivermos e, às vezes até depois da morte, embora nem sempre tenhamos convicção de que isso ocorra. No entanto, seja pelo que seja, seja pelo que temos consciência, seja pelo que acreditamos, a meta de uma vida humana tem a duração dessa vida, começando onde começar e terminando onde terminar.

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor. Efésios 1:3,4.

Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Mateus 25:34.

A besta que viste foi e já não é, e há de subir do abismo, e irá à perdição; e os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, ainda que é.Apocalipse 17:8.

E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo. Apocalipse 20:15.

A luta pode ser linear ou cheia de altos e baixos. É variável conforme as circunstâncias. Poucos seguem a linearidade. A maioria segue por esse sobe e desce.

Eis que saiu o semeador a semear. E aconteceu que semeando ele, uma parte da semente caiu junto do caminho, e vieram as aves do céu, e a comeram; e outra caiu sobre pedregais, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque não tinha terra profunda; mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou-se. E outra caiu entre espinhos e, crescendo os espinhos, a sufocaram e não deu fruto.E outra caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu; e um produziu trinta, outro sessenta, e outro cem.Marcos 4:3-8.

O que semeia, semeia a palavra; e, os que estão junto do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; mas, tendo-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que foi semeada nos seus corações. E da mesma forma os que recebem a semente sobre pedregais; os quais, ouvindo a palavra, logo com prazer a recebem; mas não têm raiz em si mesmos, antes são temporãos; depois, sobrevindo tribulação ou perseguição, por causa da palavra, logo se escandalizam. E outros são os que recebem a semente entre espinhos, os quais ouvem a palavra; mas os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera. E estes são os que foram semeados em boa terra, os que ouvem a palavra e a recebem, e dão fruto, um trinta, e outro sessenta, e outro cem. Marcos 4:14-20.

A linearidade exige postura firme, seja no que for favorável, seja no que for contraditório, seja no sim, seja no não. Aquele que segue por essa trajetória costuma levar uma vida difícil. Sofre perseguições de todos os lados; é afrontado e desrespeitado pelos que pensam e se posicionam de forma diferente.

Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem. Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Mateus 7:13-16.

E até pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos sereis entregues; e matarão alguns de vós. E de todos sereis odiados por causa do meu nome. Lucas 21:16,17.

Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte. 2 Coríntios 12:10.

É difícil dizer que uma trajetória é melhor do que a outra, porque para cada um, a sua trajetória é sempre a melhor, em detrimento de todas as outras. As ideias e os pensamentos de um dificilmente serão iguais às de outros. Cada ser humano tem as suas próprias ideias e deve ser respeitado por tê-las.

Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um. Romanos 12:3.

E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber. 1 Coríntios 8:2.

Portanto assim diz o Senhor: Vós não me ouvistes a mim, para apregoardes a liberdade, cada um ao seu irmão, e cada um ao seu próximo; pois eis que eu vos apregoo a liberdade, diz o Senhor, para a espada, para a pestilência, e para a fome; e farei que sejais espanto a todos os reinos da terra. Jeremias 34:17.

Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade. Tiago 2:12.

E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão. Gálatas 2:4.

Cada ser humano que tem vindo ao mundo tem em si o dom do discernimento mínimo que é necessário para que faça as suas escolhas e responda por elas.

De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão. Romanos 14:12,13.

O direito de cada um decidir sobre o que quer é sagrado. Quem não respeita essa liberdade ainda não compreendeu o princípio fundamental da vida, que é a liberdade. Qualquer que atentar com isso, atenta contra a liberdade. O livre arbítrio é basilar na existência humana.

Porém, se vos parece mal aos vossos olhos servir ao Senhor, escolhei hoje a quem sirvais; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor. Josué 24:15.

O homem pode errar em suas escolhas, mas um não morrerá por conta das escolhas do outro. O que escolher mal pagará por sua escolha.

Que pensais, vós, os que usais esta parábola sobre a terra de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram? Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que nunca mais direis esta parábola em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá. Ezequiel 18:2-4.

A decisão está diante de nós. Escolhamos com amor e misericórdia, pensando em nós, mas principalmente, pensando nos que mais sofrem neste país. E seja o que seja, prossigamos com respeito e consideração por todos, ninguém se julgando melhor do que ninguém.

Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda [partidarismo] ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens. Filipenses 2:2-7.

Que todos nós sejamos abençoados!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A esperança de pobre nunca morre


A esperança de pobre nunca morre

Izaias Resplandes de Sousa


A revolta e a indignação, inexoravelmente provoca a dor, mas essa dor é muito mais forte quando os motivos da revolta e da indignação fazem parte de nossas próprias estruturas; dói muito mais quando a causa da dor está dentro da gente.
Quando eu ouvia dizer que as pessoas eram atacadas pelos coturnos e botinas das ditaduras de ontem; e que o homem se tornava o lobo do homem; e que torturava, que sequestrava, que matava e fazia desaparecer homens, mulheres e crianças simplesmente porque essas pessoas ousavam dizer o que pensavam e reclamar pelos direitos de viver com dignidade; quando eu ouvia dizer essas coisas, eu sofria muito, e, empaticamente, eu sentia a dor que elas sentiam... Mas, quando eu próprio levei as botinadas e coturnadas nas costelas, na cabeça e por tudo quanto é lado; quando eu mesmo fui torturado e fui alvo daquelas agressões; quando eu fui usado e abusado e depois largado e abandonado; quando eu fui o objeto de depreciação daquelas forças, então a minha dor se multiplicou muitas vezes mais.
Aquelas pessoas que batiam, sequestravam, torturavam, matavam e faziam desaparecer até os cadáveres... Aquelas pessoas sempre pensaram que eram melhores do que eu; pensavam que eram meus senhores e meus deuses e que eu lhes deveria obedecer incondicionalmente, ou então sofrer as consequências.
“Deita no chão”, “ponha as mãos nas costas”, “não se mexa”... Quantas pessoas ouviram isso somente porque eram pobres, maltrapilhos, negros e LGBTs... Eu não quero continuar vendo isso nunca mais. E vou lutar por essa causa enquanto eu viver.
Eu não fui castigado diretamente pelos ditadores, mas eu sofri as consequências de suas ideias autoritárias. Eu era estudante ginasial na década de sessenta. Meus pais eram pobres. Não havia escola pública para que eu e meus irmãos estudássemos. E de um universo de treze irmãos, eu e um outro fomos escolhidos para ir estudar na cidade. Meu irmão foi morar com uma tia em uma cidade e eu fui morar com outra tia, em outra cidade. Fui tirado do seio de minha família porque não tinha escola para mim no lugar onde eu vivia.
E então eu fui para a cidade. Mas a escola que tinha lá para mim era particular. E meu pai não tinha condições de pagar. E minha tia, igualmente muito pobre, com muitos filhos para sustentar, também não tinha condições. Mal conseguia me alimentar. E então, com dez anos de idade, eu fui obrigado a trabalhar para pagar a minha escola. Na hora do recreio, meus colegas lanchavam e eu sentia o agradável cheiro dos cachorros quentes que eles comiam e sonhava com o dia eu que pudesse comer pelo menos um pedaço de um deles acompanhado por um gole grapette, um refrigerante de uva daquela época. Mas eu não podia nem espichar os olhos para a merenda de meus colegas, porque só de estar ali, naquela escola de pessoas que podiam pagar para estudar já era um grande privilégio para um filho de pobre como eu.
Aquela geração achava muito normal que uma criança de onze anos como eu tivesse que trabalhar como um adulto. Eu fazia a limpeza de minha sala de aula em troca da mensalidade escolar; e depois eu vendia as coisas na rua para ter com que comprar cadernos, livros e outros materiais escolares. E acabei tomando gosto pelo dinheiro que conseguia, de tal sorte que, mal consegui terminar o ginásio naquele tempo, pois o que me interessava era trabalhar e ganhar dinheiro, ainda que fossem trocados.
Perdi muitos anos de minha vida em trabalhos corriqueiros e mal remunerados, ao invés de estudar e me tornar um profissional de verdade. Terminei o ginásio em 1973, mas somente concluí o segundo grau em 1984. E somente ingressei na faculdade em 1995. Foram onze anos para concluir o 2º grau e onze anos para ingressar na faculdade. E não pode ser de outra forma, porque eu próprio tivera que trabalhar para prover o meu sustento, não sobrando muito tempo e disposição para estudar.
E então eu vi as coisas mudando enquanto eu envelhecia. E veio a Constituição de 1988 e depois dela várias leis assegurando o direito de todos ao estudo, principalmente para as crianças, as quais foram protegidas até os dezesseis anos para que pudessem ser crianças, brincar, estudar e se preparar para viver uma vida digna.
Mas apesar da Constituição e das leis, os direitos não vieram sem lutas. E eu participei dessas lutas. Eu vivi essas lutas. Eu fui para as ruas e agitei bandeiras, e fiz discursos, e enfrentei o sistema... E então eu vi os governos lentamente mudando e se aperfeiçoando, ao rufar dos tambores de nossas lutas na resistência em favor da inclusão de todos aqueles que, por alguma razão social, física, cultural ou qualquer outra que fosse, estivessem impedidos de exercer os seus direitos como pessoas humanas que são.
E eu sou feliz porque eu vi os pobres, os negros, os índios, as mulheres, os portadores de necessidades especiais e toda a diversidade de gênero incluída nos programas sociais de meu país. Eu vi os pobres comendo, estudando, se preparando para o trabalho e trabalhando, no campo e nas cidades. E repito que não estou dizendo isso apenas porque me contaram, mas porque eu vi e vivi tudo isso, como também a maioria da população brasileira ainda vê e vive tudo isso até os dias de hoje.
E a luta nas trincheiras da resistência deve continuar. Os números divulgados pelo IBGE me mostram que estou no caminho certo ao dizer isso. A pesquisa revela que 53,9 milhões de brasileiros vivem na pobreza. E que desse total, 21,9 milhões de pessoas são indigentes e não tem dinheiro para comprar os alimentos que precisam. A pesquisa diz ainda que mais da metade da população do Brasil ganha menos de um salário mínimo por mês. E que a riqueza está nas mãos de menos de dez por cento da população privilegiada do Brasil.
E alguém ainda vem me falar de capitalismo como a solução para esse Brasil de pobres e miseráveis como eu! Desculpem-me os que estão dentro, mamando nas tetas do sistema, mas não são vocês os que precisam de socorro, porque vocês podem cuidar de vocês. E nós, com quem poderemos contar?
E ao encerrar, eu lhes digo que a minha tristeza é ainda maior, porque até uma grande parcela da igreja, que deveria representar a força dos fracos e oprimidos, hoje eu a vejo adotando  e seguindo o discurso capitalista dos incluídos e favorecidos do sistema, defendendo a exclusão social em nome de Deus, indo contra o discurso cristão de Jesus de que a missão dele e de sua igreja é buscar e salvar o perdido, o que não tem, o pobre, o necessitado, a ovelha errante, o que não tem ninguém por ele...
Se você é um pobre como eu, ou até mais que eu e não quer se ver no espelho dessa narrativa, tudo bem... Eu te compreendo, porque sei que você deve estar sonhando que já está salvo, que já não sofre, que já tem o que precisa e que Deus veio em teu socorro. Mas eu gritar  ao seu coração: Acorda, irmão! Seu sonho ainda não é realidade. E nós precisamos de você na luta. Junte-se a nós: excluídos unidos, jamais serão vencidos! Excluídos unidos, jamais serão vencidos!
 E se você é um dos que tem, pode ser que você também não queira se ver no espelho da verdade desta narrativa, porque você se acha autossuficiente, senhor de si, independente... Mas, eu te digo que apesar de sua riqueza e do que você tem de bens, você é muito mais pobre do que eu, porque eu me amo e tenho quem me ama, mas você não é amado por ninguém.
E então, se vai ser eu de cá e você de lá, fique com o seu candidato dos ricos, mas me respeite e deixe que eu fique com o meu candidato dos pobres, porque se você não sabe quem você é, eu sei quem eu sou e quem é minha verdadeira gente.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

ANÁLISE DO PLANO DE GOVERNO BOLSONARO - I

ANÁLISE DO PLANO DE GOVERNO BOLSONARO




1 . DEMOCRACIA E ECONOMIA

O candidato militar ao governo do Brasil Jair Bolsonaro em seu plano de governo exalta o governo da ditadura e condena os governos democráticos dos últimos 30 anos. Eis sua proposta: “Enfrentaremos os grupos de interesses escusos que quase destruíram o país. Após 30 anos em que a esquerda corrompeu a democracia e estagnou a economia, faremos uma aliança da ordem com o progresso: um governo Liberal Democrata”.

Pois bem… A gente conhece a seriedade de uma pessoa não é pelo que ele diz, mas pelo que ele faz, pelo que ele concorda, pelo que ele tenta esconder, pelo que ele propõe. Vejamos  não o que foi escrito agora para “ganhar o voto do povo”, mas o que foi dito e aconteceu antes de começar os tais trinta anos e o que aconteceu nos últimos trinta anos.

Bolsonaro diz que a economia e a democracia se estagnou nos últimos 30 anos, período da Nova República, em que o país foi governado com base na Constituição Cidadã de 1988. Período que ficou conhecido como a Nova República, cujos governantes foram os seguintes: - 1992 - Fernando Afonso Collor de Melo; - 1992 a 1995 - Itamar Augusto Cautiero Franco;  -1995 a 2002 - Fernando Henrique Cardoso; - 2003 a 2010 - Luiz Inácio Lula da Silva; - 2011 até 2016 - Dilma Vana Rousseff (afastada por processo de impeachment em 31 de agosto de 2016); - 31 de agosto de 2016 - início do governo do presidente Michel Temer (que era vice de Dilma).

Havia democracia no regime militar? O povo votava para escolher seu Presidente?  A resposta é um sonoro NÃO! O presidente Sarney não foi eleito pelo povo. Foi eleito pelo Congresso Nacional. E convocou a Assembleia Constituinte que fez a atual Constituição, restaurando a democracia no Brasil.

O povo somente voltou a eleger seu Presidente a partir de 1990. Fernando Collor de Melo foi o primeiro presidente DEMOCRATICAMENTE ELEITO após o regime militar. O povo pode ter errado, mas esse povo exerceu a sua LIBERDADE de escolher. Isso é democracia.

A economia ia bem no último governo militar, sob a batuta do General Figueiredo? E no último governo não eleito, o de José Sarney, sucessor de Figueiredo? Não! Na economia, o principal símbolo do governo Figueiredo foi o aumento da inflação, que chegou a 225,9% ao ano em fevereiro de 1985 e que foi de 46,1%  já no primeiro mês de seu governo. A dívida externa chegou a US$ 100,2 bilhões em 1984, representando um crescimento de US$ 50,3 bilhões em relação a 1979. O governo Sarney, último, antes do retorno da democracia, apesar dos esforços do Plano Cruzado, terminou em 1990 com inflação de 1764,86%.

O jornal O Estadão, de São Paulo, registra em manchete: Inflação: um problema que não pode ser esquecido e diz que “da hiperinflação da década de 80 à inflação na casa de um dígito que se vê hoje, o Brasil passou por uma longa história de instabilidade e aflição em relação aos preços”.

E continua…
"No auge dessa hiperinflação, o trabalhador recebia o salário no dia 1º e já corria para o mercado porque sabia que no dia 30 estaria com toda aquela inflação embutida, mesmo que ela não viesse a ocorrer", diz José Kobori, professor do Ibmec. Para ele, a indexação da economia foi um agravante da escalada inflacionária brasileira.
Fruto do esgotamento do modelo econômico adotado pelo regime militar, o Brasil viveu a década de 80 com um PIB fraco e a inflação em alta. Na tentativa de conter o aumento dos preços, planos econômicos e ministros se sucediam em curto espaço de tempo. Desde 1981, o Brasil teve seis moedas diferentes e 16 ministros da Fazenda. Diante da escalada inflacionária, as palavras "recorde" e "histórico" eram frequentes nas manchetes dos jornais. A inflação acumulada no País durante a década de 80 foi de 36.850.000%, como apontou texto de O Estado de S.Paulo da época.
E mais… O Jornal A Gazeta do Povo do dia 12/10/2017, traz a seguinte manchete: "5 coisas que a Ditadura Militar gostaria que você esquecesse: Assassinatos e torturas de crianças sem apuração dos culpados, inflação galopante, corrupção e aumento nos crimes urbanos: eis o legado do período militar" Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/5-coisas-que-a-ditadura-militar-gostaria-que-voce-esquecesse-5awepn1sdius9ws0m7na1zlnb/
O blog LUÍS NACIF ONLINE publicou em 04 de abril de 2014 A história esquecida do Capitão Bolsonaro, escrita por Luiz Egypto. Diz o texto:
Na barulhenta cobertura da mídia sobre as declarações racistas e homofóbicas do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) ao programa CQC, da Rede Bandeirantes, ficou esquecido, no fundo de um arquivo qualquer, um episódio de 24 anos atrás, também protagonizado pelo agora deputado federal, e que tocou em um dos fundamentos da atividade jornalística – qual seja, as declarações off the records, isto é, aquelas informações utilizadas pelo jornalista sob o compromisso de resguardar o anonimato de sua fonte.
A história é a seguinte. No segundo semestre de 1987, finda a ditadura e já sob o governo civil de José Sarney, a economia estava combalida em razão do fracasso do Plano Cruzado. A inflação era alta, tendendo a índices estratosféricos, e grassava forte insatisfação nos quartéis devido à política de reajustes dos soldos dos militares – além, é claro, do incômodo, sobretudo entre a oficialidade média, pela perda do poder político que gozaram por 21 anos seguidos.
Jair Bolsonaro era então capitão do Exército, da ativa, cursava a Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESAO) e morava na Vila Militar, na Zona Norte do Rio. Em setembro de 1986, ele assinara um artigo na revista Veja no qual protestava contra os baixos vencimentos dos militares. Por isso ele foi preso e, na época, sua punição provocou protestos de mulheres de oficiais da ativa – que, ao contrário dos maridos, podiam sair em passeata sem correr o risco de serem presas.
"Só para assustar"
Bolsonaro tornou-se fonte da revista. Em meados de outubro 1987, a prisão de outro militar, capitão Saldon Pereira Filho, pelo mesmo motivo, levou à Vila Militar a repórter Cassia Maria, de Veja, destacada para repercutir o ocorrido. Ali ela conversou com Jair Bolsonaro, que estava acompanhado de outro capitão e da mulher deste.
Sob condição de sigilo, a mulher do militar contou à repórter – e depois Bolsonaro e seu colega confirmaram – que estava sendo preparado um plano batizado de "Beco sem saída". O objetivo era explodir bombas de baixa potência em banheiros da Vila Militar, da Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende (RJ), e em alguns quartéis. A intenção era não machucar ninguém, mas deixar clara a insatisfação da oficialidade com o índice de reajuste salarial que seria anunciado dali a poucos dias. E com a política para a tropa do então ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves – que teria sua autoridade seriamente arranhada com os atentados.
"Serão apenas explosões pequenas, para assustar o ministro. Só o suficiente para o presidente José Sarney entender que o Leônidas não exerce nenhum controle sobre a tropa", ouviu a repórter de Ligia, mulher do colega de Bolsonaro, identificado com o codinome de "Xerife".
Frase isolada
A repórter havia apurado uma bomba, no sentido literal e no figurado. Veja não respeitou o off – no que fez muito bem, neste caso, pois do contrário estaria acobertando atos terroristas – e quebrou o pacto de sigilo com a fonte. A história toda foi contada nas páginas 40 e 41 da edição 999 (de 27/10/1987) da revista. A repórter Cassia Maria anotou em seu relato:
"‘Temos um ministro incompetente e até racista’, disse Bolsonaro a certa altura. ‘Ele disse em Manaus que os militares são a classe de vagabundos mais bem remunerada que existe no país. Só concordamos em que ele está realmente criando vagabundos, pois hoje em dia o soldado fica o ano inteiro pintando de branco o meio-fio dos quartéis, esperando a visita dos generais, fazendo faxina ou dando plantão’. Perguntei, então, se eles pretendiam realizar alguma operação maior nos quartéis. ‘Só a explosão de algumas espoletas’, brincou Bolsonaro. Depois, sérios, confirmaram a operação que Lígia chamara de Beco sem Saída. ‘Falamos, falamos, e eles não resolvem nada’, disseram. ‘Agora o pessoal está pensando em explorar alguns pontos sensíveis.’
Sem o menor constrangimento, o capitão Bolsonaro deu uma detalhada explicação sobre como construir uma bomba-relógio. O explosivo seria o trinitrotolueno, o TNT, a popular dinamite. O plano dos oficiais foi feito para que não houvesse vítimas. A intenção era demonstrar a insatisfação com os salários e criar problemas para o ministro Leônidas.
(...)
Nervoso, Bolsonaro advertiu-me mais uma vez para não publicar nada sobre nossas conversas. ‘Você sabe em que terreno está entrando, não sabe?’, perguntou. E eu respondi: ‘Você não pode esquecer que sou uma profissional’."
Com esses antecedentes, não deixa de ser curioso que agora, quando o personagem volta à baila, a cobertura da edição (nº 2211, com data de capa de 6/4/2011) desta semana de Veja sobre o explosivo episódio de racismo, que suscitou tanta repercussão, resuma-se a uma mísera frase de Bolsonaro reproduzida na seção "Veja Essa".
Faltou um curioso da Redação para examinar o arquivo digital da revista. Faria um gol.
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E agora digo eu, depois de ler a história: só um louco pode ter saudades do regime militar. Só um cego não consegue ver o fracasso governamental daquele regime e as lutas homéricas que os governos democráticos dos últimos 30 anos tiveram para controlar a inflação e colocar a economia outra vez nos trilhos.
Como se pode dizer que uma economia que gerou uma inflação de 225,9% em 1985 (último ano do governo Figueiredo) e que fechou o ano de 1990 em 1.764,86% (final do governo Sarney), mas que  nos oito anos de FHC teve a média de 9,1% ao ano, e uma média de 5,9% nos onze anos de LULA/DILMA  e que fechou 2017 com 2,95 % ao ano pode ser reflexo de uma economia corrompida e estagnada?
Pelo visto em seu Plano de Governo, Bolsonaro, se eleito, pretende reverter nossa economia e democracia para os níveis e estágios do fim da ditadura, quando, segundo ele, começou essa corrupção e estagnação?
Isso é o que eu venho tentando dizer para os meus relacionados. Não devemos ver e ouvir o lero-lero de agora. É preciso ver a história do candidato. Principalmente quando esse candidato já está no poder desde o início do período em que ele afirma que a economia se estagnou e a democracia, igualmente.
É de ver que Jair Messias Bolsonaro é deputado desde 1991, estando, atualmente, em seu sétimo mandato. Ou seja, ele foi deputado federal durante todo o período em que ele avalia como corrompido e estagnado.
É de destacar ainda que ele não possui ideologia partidária. Qualquer sigla que engula as suas pretensões serve para os seus interesses. Já foi filiado nos seguintes partidos: PRP, PP, PTB, PFL. Em 2017, estava no PSC, mas fez negociações para ir ao PEN. Lança-se candidato pelo PSL.
Segundo a imprensa, Bolsonaro é violento e durante o governo Sarney já esteve envolvido em atos terroristas, visando minar a autoridade do Ministro do Exército Leônidas Pires. Além da matéria que transcrevemos, a matéria completa pode ser lida na revista Veja, em: https://veja.abril.com.br/blog/reveja/reveja-jair-bolsonaro-explosivo-desde-1986/.
Continuaremos analisando o plano de governo e a história desse homem que para muitos evangélicos “é o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Izaias Resplandes de Sousa